nfernos, é o anão - disse por fim uma voz
grossa atrás dele, e a jaula parou com um salto
súbito e ali ficou, oscilando lentamente de um lado
para o outro, com as cordas rangendo.
- Tragam-no, raios - ouviu-se um grunhido e um
sonoro gemido de madeira quando a gaiola deslizou
de lado e a muralha apareceu por baixo de seus pés.
Tyrion esperou que a oscilação parasse antes de abrir
a porta da gaiola e saltar para o gelo. Uma pesada
figura vestida de negro apoiava-se no guincho,
enquanto uma segunda segurava a gaiola com uma
mão enluvada. Seus rostos estavam cobertos por
lenços de lã que deixavam ver apenas os olhos, e
estavam inchados com as camadas de lã e couro que
traziam, negro sobre negro.
- E o que o senhor há de querer a esta hora da noite?
- perguntou o homem do guincho.
- Um último olhar.
Os homens trocaram olhares carrancudos.
- Olhe o que quiser - disse o outro. - Tenha apenas
cuidado para não cair, homenzinho. O Velho Urso
exigiria a nossa pele - uma pequena cabana de
madeira erguia-se sob a grande grua. Tyrion viu o
pálido brilho de um braseiro e sentiu uma breve
lufada de calor quando os homens do guincho
abriram a porta e voltaram para dentro. E então
ficou só.
Estava um frio medonho ali em cima, e o vento o
puxava pela roupa como uma amante insistente. O
topo da Muralha era mais largo que a maior parte da
estrada do rei, e Tyrion não tinha medo de cair,
embora seus pés escorregassem mais do que gostaria.
Os irmãos espalhavam pedra esmagada pelas
passagens, mas o peso de incontáveis passos derretia
a Muralha nesses locais e o gelo parecia crescer em
torno do cascalho, engolindo-o, até que o caminho
ficava de novo liso e era tempo de esmagar mais
pedra.
Mesmo assim, não era nada com que Tyrion não
conseguisse lidar. Olhou para leste e oeste, para a
Muralha que se estendia à sua frente, uma vasta
estrada branca sem princípio nem fim e um abismo
escuro de ambos os lados. Oeste, decidiu, por
nenhum motivo em especial, e começou a andar
nessa direção, seguindo o caminho mais próximo da
beira norte, onde o cascalho parecia mais recente.
As bochechas nuas estavam coradas de frio, e as
pernas queixavam-se mais alto a cada passo, mas
Tyrion as ignorou. O vento rodopiava em seu redor,
a brita rangia sob as botas, enquanto à frente a fita
branca seguia os contornos das colinas, erguendo-se
cada vez mais alta, até se perder para lá do
horizonte ocidental. Passou por uma maciça
catapulta, alta como uma muralha de cidade, com a
base profundamente afundada na Muralha. O braço
lançador tinha sido removido para passar por
reparos, e depois fora esquecido; jazia ali como um
brinquedo partido, meio embutido no gelo.
Do lado de lá da catapulta, uma voz abafada soltou
um grito.
- Quem vem lá? Alto!
Tyrion parou.
- Se fizer alto por muito tempo, congelo, Jon - disse,
enquanto uma hirsuta silhueta clara deslizava em
silêncio na sua direção e farejava suas peles. - Olá,
Fantasma.
Jon Snow se aproximou. Parecia maior e mais
pesado dentro de suas camadas de peles e couro e
com o capuz do manto sobre o rosto.
- Lannister - disse, soltando o lenço para descobrir a
boca. - Este é o último lugar em que esperaria vê-lo -
carregava uma pesada lança com ponta de ferro,
maior que ele, e da cintura pendia uma espada numa
bainha de couro. Atravessado no peito trazia um
cintilante corno de guerra negro com faixas de prata.
- Este é o último lugar onde esperaria ser visto -
admitiu Tyrion. - Fui tomado por um capricho. Se
tocar no Fantasma, ele arranca minha mão?
- Comigo aqui, não - Jon assegurou.
Tyrion coçou o lobo branco atrás das orelhas. Os
olhos vermelhos observaram-no, impassíveis. O
animal já lhe chegava ao peito. Mais um ano e
Tyrion tinha a sensação sombria de que teria de
olhar para cima se quisesse ver sua cabeça.
- Que faz aqui esta noite? - perguntou. - Além de
congelar seus órgãos viris?
- Calhou-me a guarda noturna - Jon respondeu. -
Outra vez. Sor Alliser tratou gentilmente de arranjar
as coisas de modo que o comandante da guarda
ganhasse um especial interesse por mim. Parece
pensar que, se me mantiverem acordado metade da
noite, acabarei dormindo durante o exercício da
manhã. Até agora o tenho desapontado.
Tyrion mostrou os dentes.
- E o Fantasma já aprendeu a fazer malabarismos?
- Não - disse Jon, sorrindo -, mas hoje de manhã
Grenn conseguiu aguentar Halder, e Pyp já não
deixa cair a espada tantas vezes como deixava.
-Pyp?
- Seu verdadeiro nome é Pypar. O rapaz pequeno com
grandes orelhas. Ele me viu trabalhando com Grenn
e me pediu ajuda. Thorne nunca sequer lhe tinha
mostrado a maneira certa de segurar uma espada -
virou-se para olhar o norte. - Tenho uma milha de
Muralha para guardar. Caminha comigo?
- Se caminhar devagar - disse Tyrion.
- O comandante da guarda diz que devo caminhar
para impedir o sangue de congelar, mas nunca me
disse nada sobre a velocidade.
Puseram-se a caminho, com Fantasma caminhando
ao lado de Jon como uma sombra branca.
- Parto de manhã - disse Tyrion.
- Eu sei - Jon soava estranhame